
Enquanto esperávamos em um hospital público, fomos abordados por um grupo de estudantes de psicologia que entregavam panfletos sobre racismo nas escolas. Eles convidavam as pessoas para uma palestra. No entanto, algo chamava atenção: entre os dez membros da equipe, não havia uma única pessoa negra. A comunidade presente, visivelmente humilde e carente, foi orientada a reconhecer os sinais de que uma criança está “sentindo” racismo. A abordagem parecia mais comercial, como se o racismo fosse um problema que só precisa ser “tratado na vitima”, igual a uma doença.
A PERSPECTIVA DE CRIANÇA NEGRA DE UMA COMUNIDADE
Imagine uma criança negra, moradora de uma comunidade pobre, que enfrenta diariamente piadas sobre sua cor, seu cabelo e até sobre sua família. Ela vai para uma escola onde a maioria dos professores não sabe como lidar com o racismo e onde as condições já são ruins: faltam livros, cadeiras e apoio para os estudantes. Essa criança volta para casa com a autoestima ferida, muitas vezes sem nem entender por que está sendo tratada de forma diferente.
Agora pense: o problema é que essa criança precisa “tratar” o que sente? Ou será que o problema está em um sistema que permite que o racismo aconteça nas escolas, nas ruas e até nos hospitais? Tratar o racismo como se fosse algo que a vítima deve superar é injusto e desvia o foco de onde ele realmente precisa estar: em quem pratica o racismo e em quem permite que ele continue acontecendo.
Nesse caso específico, o grupo de estudantes tinha boas intenções, mas a ausência de pessoas negras na equipe já demonstra como falta empatia e conexão com a realidade. Como alguém que nunca viveu o racismo pode explicar a uma comunidade negra o impacto disso na vida de suas crianças? Além disso, pedir para os pais “reconhecerem os sinais” é insuficiente se as escolas e as instituições que deveriam proteger essas crianças não estão combatendo o racismo de verdade.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DISSO?
Essa abordagem reflete uma visão limitada e superficial do problema. Em vez de enfrentar o racismo como um sistema que exclui e desumaniza crianças negras, ele é tratado como um problema individual, quase como uma “doença” que afeta a vítima. Isso ignora o que realmente importa: mudar as estruturas que perpetuam o racismo, como melhorar a formação dos professores, incluir conteúdos sobre igualdade racial no currículo escolar e criar políticas para proteger e empoderar essas crianças.
Por exemplo, em vez de só distribuir panfletos, seria mais eficaz organizar rodas de conversa com a comunidade, incluindo pessoas negras que entendem o problema por experiência própria, para discutir soluções práticas. Ou exigir que as escolas tenham programas contra o racismo, além de apoio psicológico para as vítimas, mas sem tirar o foco de que o problema está em quem pratica e perpetua o preconceito.
Para a criança negra de uma comunidade pobre, o que faz diferença não é só o reconhecimento do sofrimento, mas um esforço real para que ela possa viver em um ambiente onde não precise provar seu valor ou lidar com a discriminação diariamente. Racismo não é algo que a vítima precisa “tratar”, é algo que a sociedade precisa erradicar.
Infelizmente, em muitos casos, o tema do racismo é tratado como um “dever de casa” acadêmico, sem uma verdadeira conexão com as pessoas que sofrem. Isso banaliza o problema e desvia o foco do impacto real que ele tem na vida das crianças negras. É como se as instituições de ensino estivessem mais preocupadas em “cumprir tabela” do que em formar profissionais realmente conscientes e preparados para lidar com questões sociais profundas.
Para que a psicologia seja uma ferramenta de mudança, ela precisa sair da sala de aula e entrar de verdade na vida das comunidades. Combater o racismo exige coragem, compromisso e ação. Não é sobre notas ou certificados, mas sobre criar um mundo onde as crianças negras possam crescer livres do peso da discriminação.